Vale a pena ler e recordar…

Vale a pena ler e recordar…

Vale a pena recordar o que Carlos Costa pensa sobre sapatos. Disse ele, há uns dois anos, comentando a falta de equidade na distribuição dos recursos bancários em Portugal: «Uma sapataria na Rua Augusta não calça todos os descalços que lhe passam à frente da porta. Só aqueles que podem pagar. Um banco é a mesma coisa».

Chamou-me a atenção a brutal frieza da afirmação. E preocupou-me. Meses antes, Carlos Costa tinha recorrido à mesma metáfora. Numa irritada intervenção em tribunal para defender a sua boa gestão no BCP num litígio sobre depósitos offshore, dissera que «vender crédito ou vender sapatos não é muito diferente».

O problema destas declarações é que estão citadas em rigoroso contexto. Foram feitas quando o governador falava da falta de crédito para o desenvolvimento em Portugal e do desvio de verbas para paraísos fiscais, dando a todos os que o ouviam a imagem do país dos descalços, a tiritar frente às montras das sapatarias da Baixa.

Tenho aguardado que Carlos Costa produza metáfora interessante, que esteja ao nível das soluções que arquitetou para o Banco Espírito Santo e para o Banif.

Se não o fez por palavras, deu corpo, por ações, a uma das mais famosas imagens da nossa história recente: ‘os ricos que paguem a crise’. Aplaudido, muito apropriadamente, pelo Comité Central do Partido Comunista, Carlos Costa despejou os problemas da insuficiência das suas soluções anteriores para o BES nos investidores internacionais que acreditaram que uma Obrigação avalizada por este Estado Português era um produto respeitável em que se podia investir.

Está claro que não é. Há dezoito meses o Banco de Portugal dizia que os investimentos em Obrigações Sénior no BES eram bons ativos de um suposto Banco Bom. Agora diz que já não são. São lixo de um Banco realmente Mau. Se, como disse, vender crédito é quase o mesmo que vender sapatos, então comprar crédito também deve ser. E que sapateiros é que nos vão vender sapatos a nós, que estamos com os pés enregelados neste Inverno do nosso descontentamento, depois de os termos falcatruado em montantes enormes que comprometem, sobretudo, seguros e pensões em praticamente todas as economias desenvolvidas do mundo.


Como é que vão reagir o PIMCO, a Black Rock, a UBS e mais três dezenas de fundos que acreditaram que um contrato obrigacionista dado como bom há ano e meio pelo Estado Português é agora, sem qualquer negociação ou aviso-prévio, posto de lado com um mero ‘não pagamos’? Isto traduzido em linguagem corrente significa que Carlos Costa deu finalmente corpo à tresloucada ideia de que os ricos podem pagar todas crises da incompetência, confiscando enxadas ou vendendo sobreiros para lenha. É que estes ‘ricos’ são as instituições financeiras de que Portugal depende para suprir a sua constante insuficiência de capital próprio e que nos classificam em ratings que custam dinheiro dos impostos. Obrigações são os empréstimos que os bancos contraem para cumprirem eles próprios a sua função financiadora.

Vender ou comprar crédito nunca pode ser o mesmo que vender ou comprar sapatos. É infinitamente mais complexo. Sobretudo tem que ter em conta aquele ingrediente que é, desde sempre, a essência da indústria financeira: a fidúcia. A fiabilidade. A confiança.

Ao desonrar um contrato obrigacionista do calibre dos que Portugal tinha com umas três dezenas de instituições internacionais, o Banco de Portugal deu a maior machadada na credibilidade do sistema financeiro português desde a nacionalização da banca no PREC. Quem é que vai acreditar agora numa Obrigação de um banco português que é honrada hoje para ser desonrada ano e meio depois?

O prejuízo real causado pelo incumprimento destas obrigações do BES quando contabilizado vai ser bem mais funesto do que os efeitos do enorme aumento de impostos que a leviana solução encontrada em 48 horas para o Banif está a causar.

Os custos dos litígios, que garantidamente virão em consequência do incumprimento destes contratos, serão astronómicos e não haverá metas do défice que aguentem. Na verdade, esta decisão do governador do Banco de Portugal sinalizou para o mundo a necessidade de novo resgate da troika. Estes resgates serão sucessivos enquanto tivermos este Banco de Portugal que acredita que os ricos podem pagar as crises e que o crédito de um país se vende como um par de sapatos.

Mário Crespo