Bloco Central. Quando Mário Soares precisou de Mota Pinto para governar

Bloco Central. Quando Mário Soares precisou de Mota Pinto para governar

Como foi quando o PS precisou do PSD para viabilizar orçamentos? Uma viagem pelo tempo do Bloco Central. As discordâncias, as cedências e os detalhes dos acordos.

Carlos Mota Pinto e Mário Soares, os dois protagonistas do Bloco Central.

4 de julho de 1983. Nesse dia, começava o curto reinado do Bloco Central. Mário Soares vencera as eleições com 36% dos votos, mas precisava de Carlos Mota Pinto para governar com estabilidade – afinal, o país dava os primeiros passos em democracia, estava mergulhado no caos financeiro, tinha o FMI outra vez à porta e a CEE no horizonte. Muita coisa para um governo minoritário.


A aliança esteve prestes a nem sair do papel. “Foram negociações muito duras e muito difíceis”, recorda António Capucho, então um dos responsáveis do lado dos sociais-democratas – a par de Vítor Crespo – pelas negociações com o PS. Ao Observador, o ministro da Qualidade de Vida do Bloco Central lembra como Mota Pinto esteve prestes a romper a corda quando tudo parecia estar já acordado. Não fosse a pressão de muitos membros do partido – Capucho e Crespo chegaram mesmo a colocar o lugar à disposição – e Mota Pinto talvez não tivesse recuado na decisão de rasgar o acordo.

Mário Soares viria a dizer, anos mais tarde, que “com o professor Mota Pinto”, nunca tinha tido “o mais pequeno dissabor”. “Antes pelo contrário, era uma figura excecional. Foi perfeito e durámos dois anos, ele era tratado como o número dois”.

Na verdade, e apesar das palavras de Soares, não foram tempos fáceis. Longe disso. Com a segunda vinda do FMI, foi preciso aumentar impostos e preços de bens sociais, congelar investimentos públicos, cortar quase 30% nos subsídios de Natal de 1983, ao mesmo tempo que se acumulavam salários em atraso, que se assistia ao crescimento do desemprego e à desvalorização do escudo.